WEG (WEGE3) entrega o trimestre mais previsível da B3. E é exatamente esse o problema a 29x lucros
- Cristiane Fensterseifer
- há 19 horas
- 9 min de leitura
São 8h30 da manhã de uma quarta-feira em Jaraguá do Sul e o mercado inteiro já sabia o que ia acontecer.
A WEG divulgou lucro líquido de R$ 1,559 bilhão no 2T26, praticamente colado no R$ 1,5 bilhão que o consenso Bloomberg esperava.
Nenhum susto, nenhuma surpresa, nenhum motivo para o papel andar.
Para uma empresa que negocia perto de 29 vezes o lucro dos últimos doze meses, previsibilidade não é elogio.
É exigência mínima.
A pergunta que este relatório responde não é se a WEG é uma boa empresa.
Ela é, e talvez seja a melhor indústria listada da B3.
A pergunta é se #WEGE3 é um bom investimento ao preço atual.
E aqui a conta fica bem mais apertada.
O resultado do 2T26 em números
No semestre, o retrato é o mesmo: lucro de R$ 3,016 bilhões (queda de 3,9%), receita de R$ 19,61 bilhões (queda de 3,3%) e EBITDA de R$ 4,315 bilhões (queda de 2,6%).
A leitura sequencial é positiva: tudo melhorou contra o 1T26.
A leitura anual é negativa: tudo piorou contra o 2T25.
E a explicação para as duas coisas é uma só palavra: câmbio.
O câmbio comeu o crescimento
O dólar médio caiu de R$ 5,67 no 2T25 para R$ 5,05 no 2T26, uma desvalorização de 10,9%.
Como a WEG fatura R$ 6,17 bilhões no mercado externo, cerca de 61% da receita total, cada centavo de real forte machuca a linha de cima.
O dado que separa o ruído do sinal: em dólares, a receita externa cresceu 14,7% no ano, para US$ 1,221 bilhão.
A operação internacional está acelerando em moeda forte, com destaque para demanda ligada a data centers, óleo e gás e o negócio de transmissão e distribuição.
O que aparece no balanço em reais é outra história.
No mercado interno, a receita de R$ 3,97 bilhões caiu 4,9%, puxada pelo fim dos grandes projetos de geração solar centralizada, sem novos projetos em 2026, parcialmente compensada pelas entregas de T&D (Transmissão e Distribuição) e por uma atividade industrial um pouco melhor.
O ROIC de 33,6%, o maior nível recente, é o número que sustenta a tese inteira da WEG.
Nenhum par global chega perto, e já vamos comparar.
Múltiplos: o preço da perfeição
Com a ação por volta de R$ 46 e valor de mercado próximo de R$ 195 bilhões, os múltiplos calculados sobre os números reportados ficam assim:
P/L de 29,2x nos últimos doze meses.
Lucro acumulado de R$ 6,25 bilhões (2S25 + 1S26).
Para 2026 cheio, assumindo segundo semestre sazonalmente mais forte, algo entre R$ 6,3 e 6,5 bilhões, o P/L projetado fica entre 28x e 29x.
Ou seja: o mercado não espera crescimento de lucro em 2026 e mesmo assim paga quase 30 vezes.
EV/EBITDA de 20,2x nos últimos doze meses.
EBITDA acumulado de R$ 8,9 bilhões e caixa líquido de R$ 2,65 bilhões no fim de 2025 (posição do 2T26).
Projetado para 2026, com EBITDA entre R$ 8,9 e 9,1 bilhões, o múltiplo praticamente não se move: 19,8x a 20,2x.
P/VP de aproximadamente 10x, coerente com ROE na casa de 35%.
Pela fórmula do P/VP justo (ROE dividido pelo custo de capital próprio), um P/VP de 10x só se justifica com custo de capital abaixo de 4% ou com premissa de que o ROE de 35% é perpétuo e crescente.
Nenhuma das duas é trivial.
Dividend yield de cerca de 5% nos últimos doze meses, mas cuidado com esse número:
ele está inflado pelo dividendo extraordinário de R$ 5,196 bilhões sobre reservas de lucros, pago em três parcelas anuais (agosto de 2026, 2027 e 2028).
O yield recorrente projetado para 2026 é da ordem de 1,7%.
Fluxo de caixa e FCF yield: o calcanhar do compounder
Aqui está a parte que quase ninguém olha na WEG.
Em 2025, a companhia gerou R$ 6,45 bilhões de caixa operacional.
O capex do ano ficou na casa de R$ 3,1 bilhões, dentro do ciclo pesado de expansão de capacidade no Brasil e no exterior.
Resultado: fluxo de caixa livre para a firma de aproximadamente R$ 3,3 bilhões.
FCF yield atual: cerca de 1,8%.
Sobre um valor de mercado de R$ 195 bilhões, é isso que a empresa devolve em caixa livre hoje.
FCFE yield: praticamente o mesmo, entre 1,8% e 2,0%.
Como a WEG opera com caixa líquido e dívida bruta pequena, a diferença entre fluxo para a firma e fluxo para o acionista é marginal.
Projetado para 2026: entre 1,9% e 2,2%.
Assumindo caixa operacional de R$ 6,5 a 7,0 bilhões e capex ainda elevado, perto de R$ 3,2 bilhões, dado que o 2T26 sozinho consumiu R$ 794,9 milhões, sendo 55,5% no exterior.
Os números acima usam a base anual de 2025 como referência e são estimativas.
O ponto analítico é este:
um FCF yield abaixo de 2% seria aceitável em uma empresa dobrando de tamanho.
A WEG está com receita e lucro em queda nominal em 2026.
A defesa da tese é que o capex de hoje é o crescimento de 2027 em diante, e que o FCF normalizado pós-ciclo de investimento é substancialmente maior.
É uma defesa legítima.
Mas é uma promessa, não um número no balanço.
Comparação com pares: a WEG é melhor, mas não é mais barata
Primeira: a WEG negocia com leve desconto de P/L contra ABB e Schneider e tem ROIC muito superior, 33,6% contra 25,1% da ABB e 13,1% da Schneider.
Por esse ângulo, o prêmio de qualidade da WEG é real e o papel não está caro contra os pares.
Segunda camada, menos confortável:
ABB e Schneider estão nesses múltiplos depois de altas de 55% e 25% em doze meses, surfando a onda de eletrificação e data centers, com carteiras de pedidos recordes.
A ABB acabou de reportar trimestre histórico, com US$ 12 bilhões em entrada de pedidos, e elevou o guidance de 2026.
A WEG, no mesmo período, subiu cerca de 11% e reportou lucro em queda.
O mercado global está pagando caro por crescimento entregue.
Na WEG, está pagando caro por crescimento prometido.
A sobreposição de portfólio com a ABB em Motion e Eletrificação é o melhor argumento pró-WEG dessa comparação:
se a demanda global está aquecida para a ABB, ela tende a chegar na catarinense, especialmente a partir do 3T26.
O que o sell side está dizendo
Banco A : compra, preço-alvo de R$ 65, upside de aproximadamente 49%. É a casa mais otimista da rua.
Os catalisadores listados: entrada das novas capacidades, resolução dos impasses tarifários com os EUA, leilão de baterias no Brasil e execução da carteira de encomendas.
O banco estima que a nova tarifa americana de 25%, em vigor desde 22 de julho, afeta no máximo 3% da receita, mitigável por realocação geográfica de produção e repasse de preços.
Banco B: compra, preço-alvo de R$ 48 (downside após alfa de hj)
A casa vê cenário desafiador no curto prazo, com pressão de margem pelo custo da expansão de capacidade, mas mantém a tese estrutural, apostando em nova fase de crescimento a partir de 2027.
Banco C: neutro, preço-alvo de R$ 49. Na prévia, resumiu o sentimento:
a WEG perdeu o posto de queridinha e o resultado não seria o gatilho para recuperar.
Banco D: A casa considera o crescimento mais do que precificado.
O intervalo de alvos vai de R$ 48 a R$ 65
Pelos alvos das casas citadas, o upside é quase zero a R$ 49.
Valuation por DCF: a conta que o mercado não quer fazer
Fiz o exercício completo e vou mostrar o resultado, porque é o trecho mais importante deste relatório.
Premissas do cenário base:
FCFF normalizado partindo de R$ 3,5 bilhões em 2026, crescimento de 12% ao ano até 2031 (acima do crescimento atual, dando o benefício da dúvida ao ciclo de capex), perpetuidade de 6% nominal e WACC de 13% em reais, compatível com uma NTN-B longa perto de 7% real mais inflação e prêmio de risco.
Resultado: valor justo na casa de R$ 17 por ação.
Suavizando tudo, com WACC de 11%, justificável pela receita majoritariamente externa e fluxos parcialmente dolarizados, e crescimento de 15% ao ano por cinco anos, o valor justo sobe para cerca de R$ 26 por ação.
Ainda 40% abaixo do preço de tela.
Antes de gritar que o modelo está errado, inverta a pergunta.
O DCF reverso diz o seguinte: para justificar R$ 43,50, é preciso acreditar em crescimento de fluxo de caixa livre próximo de 20% ao ano por uma década, ou aceitar um custo de capital de empresa desenvolvida, na casa de 9%, para uma companhia listada em reais.
Isso não significa que a WEG vai cair para R$ 17.
Compounders de ROIC alto negociam acima do DCF tradicional há décadas, no Brasil e no mundo, porque o mercado precifica a opcionalidade de reinvestir a 33% de retorno.
Significa que, no preço atual, toda a margem de segurança está na fé de que o ROIC de 33,6% sobrevive a mais dez anos de competição com ABB, Siemens, Nidec e os fabricantes chineses.
Quem compra WEG a 29x lucros não está comprando o balanço de 2026. Está comprando 2032.
Cenário de dcf com 30% do CAPEX, o de manutenção
Cenário 2: capex cheio no período explícito, manutenção só na perpetuidade, com reinvestimento terminal de g/ROIC = 18% do NOPAT
WACC 11%
Valor justo
R$ 31,30
Cenário para tentar entender o preço alvo de R$65 do banco mais otimista
O alvo não é indefensável, mas ele exige que os quatro catalisadores listados pela casa (capacidade nova, resolução das tarifas, leilão de baterias, execução do backlog) deem certo simultaneamente, e ainda assim precisa de um custo de capital de mercado desenvolvido para fechar a conta.
Não é um preço-alvo, é um cenário de céu de brigadeiro com desconto de Zurique.
Três caminhos até R$ 65 (partindo do cenário generoso que rodamos: FCF normalizado de R$ 5,5 bi, capex só de manutenção)
Caminho 1, mexendo no WACC:
crescimento de 12,5% a.a. até 2031, perpetuidade 6% e WACC de 8,9%. Custo de capital abaixo do que a ABB usa para si mesma. Em reais.
Caminho 2, mexendo no crescimento:
WACC de 11% e FCF crescendo 27% ao ano por cinco anos seguidos.
A WEG nunca entregou isso nem no auge do ciclo solar, e o ponto de partida é um ano de lucro em queda.
Caminho 3, mexendo na perpetuidade:
WACC de 11%, crescimento explícito de 12,5% e perpetuidade de 8,4% nominal para sempre.
Spread de só 2,6 p.p. entre WACC e g terminal, o tipo de premissa que faz o valor terminal virar 85% do valuation.
Análise SWOT
Forças.
ROIC de 33,6%, entre os maiores do setor no mundo.
Caixa líquido de R$ 2,65 bilhões.
Presença em mais de 100 países com fábricas em vários continentes, o que virou vantagem estratégica na era das tarifas.
Receita externa crescendo 14,7% em dólar.
Histórico de execução e alocação de capital praticamente sem manchas em seis décadas.
Fraquezas.
Crescimento nominal negativo em 2026: receita, EBITDA e lucro caindo no ano.
Sensibilidade cambial elevada, com 61% da receita exposta à conversão para um real que se valorizou 10,9% em doze meses.
FCF yield abaixo de 2% durante o ciclo de capex.
Margem EBITDA em leve erosão, 21,8% contra 22,1% um ano atrás, pressionada por cobre, tarifas e custo de expansão.
Oportunidades.
Data centers e inteligência artificial puxando demanda por motores, transformadores e infraestrutura elétrica, o mesmo vento que produziu o trimestre recorde da ABB.
Entregas de T&D nos EUA e no Brasil.
Leilão de baterias no Brasil. Novas capacidades entrando em operação de 2027 em diante.
Consolidação via M&A, com Heresite, Tupinambá e Sanelec já no balanço.
Ameaças
Tarifa americana adicional de 25% sobre produtos brasileiros, em vigor desde 22 de julho: impacto estimado em até 3% da receita, mas com risco de escalada.
Real persistentemente forte.
Concorrência chinesa em motores e equipamentos elétricos com agressividade crescente de preço.
Vácuo do ciclo solar no Brasil sem substituto de mesmo porte no curto prazo.
E o maior risco de todos: o múltiplo.
Qualquer trimestre que quebre a previsibilidade custa caro a 29x.
Veredito
O 2T26 da WEG foi um trimestre estático de uma empresa extraordinária: em linha com o consenso, melhor que o 1T26, pior que o 2T25, com o ROIC provando mais uma vez que a máquina de Jaraguá do Sul não tem igual na B3.
O problema não está na empresa. Está no preço. A 29x lucros com lucro em queda, FCF yield abaixo de 2% e um DCF que só fecha com premissas heroicas, WEGE3 embute a recuperação de 2027 inteira e ainda cobra pedágio.
O upside pela mediana dos alvos do sell side é módico, e a casa mais otimista da rua precisa que tarifa, câmbio, leilão de baterias e capacidade nova deem certo simultaneamente.
Minha leitura: WEGE3 está no preço.
Para quem está fora, o ponto de entrada com margem de segurança não é este.
Cristiane Fensterseifer, CNPI-P, CGA
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