Um trimestre ruim, uma tese intacta: o dilema da Blau (BLAU3)
- Cristiane Fensterseifer

- há 1 dia
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BLAU3: O 4T25 foi, objetivamente, ruim.
A receita veio em R$ 389 milhões, queda de 15% na comparação anual, impactada principalmente pelo atraso em licitações federais, um efeito que não destrói demanda, mas desloca faturamento para frente.
O lucro líquido ficou em R$ 37 milhões (-34%) e o EBITDA em R$ 69 milhões (-41%), refletindo não só a menor receita, mas também um avanço relevante das despesas, que cresceram 31% puxadas por investimentos em marketing e lançamentos.
Até aqui, um trimestre que, isoladamente, não empolga.
Mas o mercado raramente precifica o passado, ele tenta antecipar o que vem depois.
A queda de receita tem um componente importante de timing.
Parte relevante das vendas não aconteceu no trimestre, mas deve aparecer já no 1T26.
Isso cria um efeito clássico: um resultado fraco hoje que prepara uma base mais fácil para uma recuperação à frente.
Além disso, a Blau segue entregando nos pilares estruturais da tese.
A margem bruta permanece resiliente, na casa de 40%, mostrando que o core do negócio continua saudável.
Os lançamentos avançaram 52% na comparação anual — um dos principais motores de crescimento da companhia
O capital de giro melhorou em relação ao 3T25, sinalizando ajuste operacional.
Por outro lado, há pontos que não podem ser ignorados.
A queda foi generalizada nos indicadores, a Hemarus ainda não contribui como esperado e, principalmente, as despesas cresceram acima da receita, um sinal de execução que precisa melhorar.
No consolidado de 2025, a empresa ainda entregou um crescimento relevante de lucro (+39%), o que reforça que o problema está mais concentrado no curto prazo do que na tese estrutural.
Olhando para frente, o guidance para 2026 é construtivo, com expectativa de normalização das licitações, captura dos investimentos recentes e avanço da estratégia de lançamentos e internacionalização.
E é aqui que entra o segundo ponto importante: valuation.
A Blau negocia hoje em torno de 11x lucro para 2025 e 9x para 2026, com EV/EBITDA na faixa de 6x forward.
FCF Yield em 2025 8% e em 2026 estimado em 9%
Isso mostra que a geração de caixa já começa a ficar interessante principalmente olhando 2026, com:
normalização das licitações
diluição das despesas
captura dos lançamentos
Se entregar isso, vira case de crescimento + geração de caixa, que costuma destravar múltiplo.
Não é um ativo caro — especialmente considerando o perfil de crescimento — mas também não é aquele desconto gritante que por si só destrava valor.
Ou seja, o múltiplo hoje depende muito mais de execução do que de reprecificação automática.
ROIC (retorno sobre o capital investido)
2025 em 14% e 2026 (estimado) de 16%
ROIC acima do custo de capital → empresa gera valor
Ainda não é “excelência”, mas é consistente pra pharma brasileira
E tem espaço pra subir com:
maturação dos lançamentos
melhor uso dos ativos (Hemarus)
diluição de despesas
Então por que a ação pode subir mesmo após um resultado fraco?
Porque o mercado tende a antecipar exatamente três coisas:
1. A normalização das receitas com o retorno das licitações já no 1T26
2. A melhora sequencial após uma base deprimida
3. A captura dos investimentos feitos em lançamentos
Leitura final
O 4T25 foi fraco e trouxe sinais de atenção na execução, principalmente do lado de despesas e integração de ativos como a Hemarus.
Mas a tese estrutural permanece intacta: portfólio em expansão, foco em medicamentos de maior complexidade e alavancas claras de crescimento para os próximos trimestres.
No curto prazo, o papel depende de mostrar entrega — especialmente já no 1T26.
No médio prazo, continua sendo uma história que pode funcionar bem se a execução acompanhar.
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