O erro que engordou os EUA é o mesmo que mantém o Brasil em juros altos
- Cristiane Fensterseifer

- 24 de jan.
- 3 min de leitura
A pirâmide alimentar que jogou um país na obesidade explica décadas de Brasil em 2 minutos
Por décadas, disseram aos americanos que a base da alimentação deveria ser pão, cereal, massa e açúcar.
A gordura virou vilã. A proteína foi empurrada pro canto do prato.
O resultado? Uma epidemia de obesidade, diabetes e doença metabólica.
Hoje, a pirâmide por lá está sendo invertida.
Carne, ovos, legumes e comida de verdade voltam à base.
Carboidrato sobe pro topo — como complemento, não fundamento.
A pergunta inevitável é:
como erraram tanto, por tanto tempo?
A resposta é desconfortável:
não foi só erro científico.
Foi um sistema inteiro se adaptando a uma premissa errada — e passando a viver dela.
E é aqui que o Brasil entra.
Quando o erro vira modelo
A pirâmide alimentar não foi mantida porque funcionava.
Foi mantida porque sustentava um ecossistema:
indústria de grãos
ultraprocessados baratos
produtos “low fat” cheios de açúcar
lobby
política pública
e, depois, uma indústria médica gigantesca tratando as consequências
Quando a população começou a adoecer, o sistema não voltou à causa.
Criou remédios, dietas, cirurgias e protocolos para administrar o estrago.
O erro virou modelo de negócios.
Agora troca o prato pelo orçamento público.
O Brasil faz exatamente a mesma coisa com juros
O Estado brasileiro é estruturalmente gastador.
Gasta mal, gasta muito e gasta com rigidez.
Mas, em vez de atacar a causa, o país escolheu administrar o sintoma.
O sintoma atende pelo nome de juros altos.
Sempre que o gasto explode:
sobe a dívida
aumenta o risco
o investidor exige prêmio
o juro sobe, vai junto
E aí nasce a narrativa:
“Juros altos são estruturais.”
“Não tem alternativa.”
“É o risco país.”
Do mesmo jeito que diziam:
“Gordura faz mal.”
“Carbo é energia limpa.”
“Caloria é caloria.”
Quando alguém diz “não tem alternativa”, geralmente significa:
ninguém quer mexer na causa
O ciclo vicioso (idêntico)
Na alimentação:
Carbo como base → obesidade → doença → remédio → mais gasto → lobby → diretriz mantida
No Brasil:
Gasto alto → déficit → dívida → juros altos → baixo crescimento → arrecada pouco → mais déficit
O sistema não quebra.
Ele se acomoda ao erro.
Quem paga a conta?
Na pirâmide alimentar: a população, a produtividade, a saúde pública
Nos juros: empresas, investimento, crescimento, inovação, indústria, emprego
O custo é sempre difuso.
O benefício, concentrado.
Juros altos não são causa. São sintoma.
Assim como obesidade não é causa — é sintoma de um modelo alimentar errado —
juros altos são o reflexo direto de um modelo fiscal desorganizado.
Enquanto o debate ficar preso em:
“quanto deve cortar o juro”
“quando o BC começa a afrouxar”
Sem encarar:
gasto
eficiência
prioridades
estrutura do Estado
Nada muda de verdade.
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Por que demora tanto pra corrigir?
Nos EUA, isso significaria assumir que uma diretriz alimentar oficial ajudou a adoecer o país.
No Brasil, significaria assumir que o problema não é o juro — é o Estado.
E sistemas grandes resistem ao máximo a esse tipo de confissão.
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A correção nunca vem por virtude
Ela vem quando o custo fica impagável.
Nos EUA:
obesidade virou crise nacional
gasto em saúde explodiu
os dados ficaram inegáveis
No Brasil:
dívida crescente
crescimento baixo
população envelhecendo
menos espaço fiscal
menos tempo
A realidade sempre vence a narrativa.
Assim como não era a gordura que engordava, não é o juro que trava o Brasil.
O juro só revela o erro.
Do mesmo jeito que a balança revela a dieta errada.
Enquanto não mudarmos a base,
continuaremos ajustando o topo — no prato e no orçamento.
E pagando a conta, de novo.
É exatamente por isso que, no investimento, eu não perco tempo tentando adivinhar o próximo corte de juros.
Meu foco é outro:
entender a base do sistema, identificar distorções e posicionar a carteira onde o mercado ainda está olhando errado.
Porque quem entende a causa
não depende do acaso.
É assim que eu invisto — e é assim que conduzo minhas carteiras e análises.
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