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Google no 2T26: o maior lucro trimestral da história veio com caixa negativo. E agora compra ou vende?

27 de jul.
8 min de leitura

O mercado esperava um bom balanço da Alphabet #GOOGL #GOGL34.


Recebeu um balanço histórico.


E vendeu a ação assim mesmo, com queda no after market apesar de resultados recordes em praticamente todas as linhas.


Se você acha isso ilógico, ótimo.

Ilógico aparente é onde mora oportunidade ou armadilha.


Vamos descobrir qual das duas.


O resultado do 2T26 em números


A receita do trimestre foi de US$ 119,8 bilhões, alta de 24% na comparação anual, superando o consenso de US$ 116,9 bilhões.


Foi o 12º trimestre consecutivo de crescimento de dois dígitos.


Aos 27 anos de idade e US$ 4 trilhões de valor de mercado, a empresa cresce como uma small cap.


O Google Cloud cresceu 82%, para US$ 24,8 bilhões, com lucro operacional de US$ 8,8 bilhões contra US$ 2,8 bilhões um ano antes.


A margem operacional do Cloud saltou de 20,7% para 35,6%.


Não é só crescimento, é crescimento com alavancagem operacional brutal.


E o número que eu considero o mais importante do release:


o backlog do Google Cloud atingiu US$ 514 bilhões em contratos já assinados e ainda não reconhecidos como receita.


Meio trilhão de dólares de receita futura contratada.


Isso é mais do que o PIB de muitos países que você visitou nas férias.


Do lado da IA como produto:


os modelos Gemini processam 22 bilhões de tokens de API por minuto, o app Gemini tem 950 milhões de usuários mensais e quase 90% da Fortune 100 usa o Gemini Enterprise. (sec)


O lucro de US$ 112 bilhões: agora a parte que a manchete não conta


Antes de emoldurar esse lucro, respira.


A linha de outras receitas trouxe um ganho líquido de US$ 98 bilhões, resultado principalmente de ganhos não realizados em participações acionárias.

Traduzindo: marcação a mercado das participações da Alphabet em duas empresas que explodiram de valor no trimestre.


Quais?


A SpaceX, na qual o Google detinha cerca de 6%, abriu capital em junho avaliada em US$ 1,77 trilhão, contra US$ 400 bilhões um ano antes.


E a Anthropic, dona do Claude, viu sua avaliação saltar de US$ 350 bilhões para US$ 965 bilhões no mesmo período.


A própria empresa informou detém cerca de 14% da Anthropic, e a participação na SpaceX vale hoje na casa dos US$ 94 bilhões, sendo US$ 80 bilhões travados em lockup de curto prazo.


O efeito contábil: o ganho de US$ 99 bilhões em ações adicionou US$ 77,1 bilhões ao lucro líquido e US$ 6,26 ao lucro por ação. (Shane the Gamer)


Faça a conta comigo: US$ 9,11 menos US$ 6,26 dá um LPA operacional de aproximadamente US$ 2,85.


O consenso esperava US$ 2,88.


Ou seja: tirando a maquiagem (legal e correta, mas maquiagem), o lucro recorrente veio em linha, com um leve miss.


O lucro histórico é real no papel. O lucro que paga as contas cresceu 30%, o que continua sendo excelente. Só não é 298%.


O elefante no data center: capex de US$ 205 bilhões e caixa negativo


Aqui está o motivo da queda da ação.


O capex do trimestre atingiu US$ 44,9 bilhões, e a empresa elevou o guidance de investimentos de 2026 para a faixa de US$ 195 a 205 bilhões, acima dos US$ 180 a 190 bilhões anteriores.


Duzentos bilhões de dólares em um ano.


Para comparar: isso é mais que o valor de mercado somado de Petrobras, Itaú e Vale.


Consequência direta: o fluxo de caixa livre do 2T26 foi negativo em US$ 5,9 bilhões.


A maior máquina de geração de caixa da história do capitalismo queimou caixa no trimestre.


E como se financia isso?


Em junho, a Alphabet levantou US$ 49,6 bilhões emitindo ações ordinárias e preferenciais conversíveis, emitiu US$ 20,3 bilhões em notas seniores e montou um programa de venda de ações no mercado de até US$ 40 bilhões.


Leia de novo:


a Alphabet, que passou duas décadas recomprando ações, agora emite ações para financiar capex.


Isso é diluição.


Pequena em termos relativos (cerca de 1% do valor de mercado), mas simbólica: o modelo de negócios mudou de fase.


A era do capital infinito de graça acabou até para o Google.


FCF yield e FCFE yield: atual e projetado


Vamos ao que quase nenhum relatório por aí faz com honestidade.


FCF yield atual: com FCF trimestral negativo e capex anual de US$ 195 a 205 bilhões contra uma geração operacional de caixa que estimo na casa de US$ 200 bilhões para 2026, o FCF do ano deve ficar próximo de zero ou levemente negativo.


FCF yield 2026: aproximadamente 0%.


Sim, zero. Você está comprando uma empresa de US$ 4,2 trilhões que neste ano não vai gerar caixa livre.


FCF yield projetado:

aqui a tese muda de figura.


Se o capex normalizar a partir de 2028 (digamos, para US$ 120 a 140 bilhões anuais) e a geração operacional de caixa acompanhar o crescimento de receita para algo entre US$ 260 e 300 bilhões, o FCF normalizado fica na faixa de US$ 130 a 160 bilhões.


Sobre o valor de mercado atual, isso implica FCF yield projetado de 3% a 4% ao ano, crescendo.


Premissas minhas, explícitas, discutíveis.


Desconfie de quem te der esse número com uma casa decimal de precisão.


FCFE yield: o FCFE atual só é positivo por causa das captações (US$ 49,6 bi em equity mais US$ 20,3 bi em dívida).


FCFE orgânico está negativo.


Em outras palavras: o caixa que sobra para o acionista hoje vem do bolso de novos acionistas e credores.


No cenário normalizado pós-pico de capex, com a dívida nova sendo rolada, o FCFE converge para o FCF e o yield para o acionista volta à faixa de 3% a 4%, mais o que vier de monetização das participações em SpaceX e Anthropic.


O dividendo, aliás, segue de US$ 0,22 por trimestre. Yield de 0,25%. Ninguém compra GOOGL por dividendo, e está tudo bem.


Múltiplos: atual e projetado


P/L: o P/L corrente informado pelos agregadores roda perto de 29 a 30 vezes, mas está poluído pelos ganhos de marcação das participações.


Sobre o lucro recorrente (excluindo ganhos de equity), meu cálculo aponta um P/L 2026 projetado na casa de 28 a 30 vezes ao preço atual de cerca de US$ 342.


Para 2027, assumindo crescimento de lucro operacional de 25% a 30% puxado pelo Cloud, o P/L projetado cai para a faixa de 22 a 24 vezes.


EV/EBITDA:


estimativa minha com premissas explícitas, já que não há consenso confirmável público para essa linha:


EV de aproximadamente US$ 4,1 trilhões (valor de mercado menos caixa líquido e participações líquidas) sobre um EBITDA 2026 que estimo entre US$ 185 e 195 bilhões (lucro operacional de ~US$ 150 bi mais D&A crescente pelo capex) dá um EV/EBITDA 2026 na faixa de 21 a 22 vezes, caindo para 17 a 18 vezes em 2027 nas minhas projeções.


Atenção: a D&A vai explodir nos próximos anos por causa do capex, o que comprime o lucro contábil futuro.


É o custo diferido da festa da IA.


Comparação com pares


O contexto do setor é curioso: as Magnificent Seven negociam hoje no menor prêmio de valuation da história em relação ao resto do S&P 500.


Na fotografia atual de múltiplos projetados: a Nvidia negocia a cerca de 21,5 vezes lucro projetado, a Microsoft roda perto de 20,5 vezes o lucro estimado para o fiscal 2027 depois de cair 24% no ano e virar a pior das Magnificent Seven, a Meta negocia na faixa de 20 e poucas vezes e a Amazon perto de 28 vezes.


Ou seja: a Alphabet, a 28-30 vezes o lucro recorrente projetado, é hoje uma das mais caras do grupo.


O prêmio se justifica por dois motivos que os pares não têm juntos:


  1. Cloud crescendo 82% com backlog de meio trilhão,

  2. Portfólio de participações (Anthropic + SpaceX) que vale sozinho perto de US$ 230 bilhões e pode destravar mais valor com a Anthropic tendo protocolado um S-1 confidencial com avaliação de US$ 965 bilhões, podendo estrear valendo mais de US$ 1 trilhão.


Comparação com pares internacionais


O contexto do setor é curioso: as Magnificent Seven negociam hoje no menor prêmio de valuation da história em relação ao resto do S&P 500.


Nvidia negocia a cerca de 21,5 vezes lucro projetado

Microsoft roda perto de 20,5 vezes o lucro


o motivo é que o fluxo de caixa livre combinado de Amazon, Alphabet e Microsoft está projetado para ficar negativo pela primeira vez, revertendo um pico de US$ 260 bilhões em 2024.


As três maiores empresas de tecnologia do planeta viraram, temporariamente, consumidoras líquidas de capital.


Quem captura esse dinheiro é a cadeia de chips.


É a maior transferência de riqueza corporativa da história acontecendo em tempo real. risco setorial que ninguém deveria ignorar: o fluxo de caixa livre combinado de Amazon, Alphabet e Microsoft está projetado para ficar negativo pela primeira vez, revertendo um pico de US$ 260 bilhões em 2024.


As três maiores empresas de tecnologia do planeta viraram, temporariamente, consumidoras líquidas de capital. Quem captura esse dinheiro é a cadeia de chips.


É a maior transferência de riqueza corporativa da história acontecendo em tempo real.


Valuation por DCF: o que o preço atual está embutindo


Cenário base (conservador): receita crescendo de US$ 470 bi em 2026 para US$ 870 bi em 2031 (desaceleração gradual de 20% para 8%), margem FCF se recuperando de 0% para 24% em 2031 conforme o capex normaliza, WACC de 9% e crescimento na perpetuidade de 3,5%.


Somando o valor presente dos fluxos, a perpetuidade e cerca de US$ 280 bilhões de participações e caixa líquido, chego a um valor justo abaixo do preço atual.


Nesse cenário conservador, a ação está cara.


DCF reverso : ao preço de US$ 342, o mercado está embutindo margem de FCF normalizada de 27% a 28% até 2031, com o capex de US$ 200 bilhões anuais se convertendo em receita de Cloud e IA na velocidade do backlog atual.


É agressivo mas o backlog de US$ 514 bilhões e o Cloud a 82% dizem que não é impossível.


Conclusão do valuation:


GOOGL hoje não é uma ação barata pelos fluxos atuais.


É uma aposta, bem fundamentada, de que o maior capex da história corporativa vira caixa.


Quem compra hoje está comprando a conversão do backlog.


O que diz o sell side


O consenso segue construtivo: entre 64 analistas, a classificação média é de compra forte, com preço-alvo de 12 meses em US$ 433,55, upside de cerca de 25% sobre o preço atual, e nenhuma recomendação de venda entre os analistas cobertos.


SWOT


Forças:


 monopólio de fato em busca (US$ 63 bi/trimestre crescendo 17% mesmo sob "ameaça" da IA),


Cloud com alavancagem operacional explosiva, backlog de US$ 514 bi, stack completo de IA (chips próprios TPU, incluindo o novo servidor Frozen v2 previsto para 2028, modelo, nuvem e distribuição), portfólio de participações de ~US$ 230 bi.


Fraquezas: 


FCF negativo, diluição inédita, dependência de publicidade (70% da receita), lucro contábil futuro pressionado pela depreciação do capex, e o atraso do Gemini 3.5 Pro, que deslocou a percepção da empresa de vanguarda para retaguarda na corrida de modelos


Oportunidades: monetização de IA na busca, conversão do backlog, IPO da Anthropic destravando valor da participação de 14%, fim do lockup da SpaceX, margens de Cloud ainda subindo.


Ameaças: regulação. A Comissão Europeia acabou de multar o Google em 890 milhões de euros por descumprimento do DMA, e o cerco antitruste nos EUA continua.


Some-se retorno incerto do capex, competição em IA (a própria Anthropic, da qual é sócia, compete com o Gemini, num arranjo que é simultaneamente hedge e conflito) e um eventual esfriamento do ciclo de gastos corporativos em IA.


Veredicto


A Alphabet entregou o melhor trimestre operacional da sua história e o mercado vendeu porque a conta da festa chegou junto: US$ 205 bilhões de capex, caixa negativo e diluição.


Minha leitura: o resultado operacional valida a tese de longo prazo, o backlog dá visibilidade rara, mas o preço atual já paga boa parte disso e o ano de 2026 será de travessia no deserto do fluxo de caixa.


Para mim, é hora de aguardar um ponto ainda melhor de entrada.


quando o GOOGL entra, sai, aumenta ou diminui na carteira, e a qual preço, está no ALL IN ONE, junto com as posições em ações brasileiras, FIIs e renda fixa que completam a alocação. Quem tá na carteira já sabe o que fazer com essa queda. Quem não tá, resolve isso em dois minutos:


Ninguém me paga comissão pra te empurrar produto. Quem paga meu trabalho é você, e mais ninguém.


Cristiane Fensterseifer, CNPI-P, CGA

Disclaimer: Este relatório tem caráter exclusivamente informativo e reflete a opinião da analista na data de sua publicação, com base em informações públicas consideradas confiáveis. Não constitui oferta de compra ou venda de valores mobiliários. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Estimativas de múltiplos projetados, FCF e DCF são cálculos próprios com premissas explícitas e sujeitos a erro. Analista credenciada pela APIMEC.



 
 
 
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