CDB prefixado vale a pena depois do corte da Selic? A conta completa
Por Cristiane Fensterseifer, CNPI-P e CGA, fundadora da Investe10. Atualizado em 17 de setembro de 2026.
Resposta curta: um CDB prefixado só vale a pena se a taxa oferecida pagar mais do que a curva de juros já paga pelo mesmo prazo, se você conseguir levar o título até o vencimento e se o valor aplicado couber na cobertura do FGC. "A Selic começou a cair" não é, sozinho, motivo para travar uma taxa por cinco anos.
Por que essa pergunta voltou agora
Em 16 de setembro de 2026, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte seguido de 0,25 ponto. No mesmo dia, o Federal Reserve subiu os juros americanos para a faixa de 3,75% a 4%.
Logo depois, os investidores começaram a receber ofertas de CDB prefixado com a mesma mensagem: garanta a taxa antes que ela caia. Neste guia, usamos como exemplo uma oferta real de mercado: CDB prefixado de 14,75% ao ano, com prazo de 5 anos.
Conta 1: quanto a curva de juros já paga
O mercado futuro de juros (DI) mostra qual taxa os investidores exigem para cada prazo. No fechamento de 16/09/2026:
Vencimento do DI | Taxa |
Janeiro de 2027 | 13,58% |
Janeiro de 2029 | 13,87% |
Janeiro de 2031 | 14,07% |
Um CDB de 5 anos vence perto de 2031. A oferta de 14,75% paga cerca de 0,7 ponto acima da curva.
Esse prêmio não é presente. Ele remunera duas coisas: o risco de crédito do banco emissor e a liquidez que você perde ao travar o dinheiro. Quanto menor e menos conhecido o banco, maior tende a ser o prêmio exigido.
Repare também que o DI de 2031 está acima da Selic atual. Ou seja, o mercado não projeta juros muito baixos por muito tempo, mesmo com o ciclo de cortes em andamento.
Conta 2: quanto sobra depois do imposto
Em aplicações acima de 720 dias, o Imposto de Renda é de 15% sobre o rendimento, cobrado no resgate.
R$ 10.000 aplicados a 14,75% ao ano por 5 anos | Valor |
Valor bruto no vencimento | R$ 19.896 |
Rendimento bruto | R$ 9.896 |
IR (15%) | R$ 1.484 |
Valor líquido | R$ 18.412 |
Taxa líquida equivalente | cerca de 12,98% ao ano |
Conta 3: quando o pós-fixado empataria
Um CDB pós-fixado de 100% do CDI, com o mesmo imposto, só empata com o prefixado de 14,75% se o CDI médio dos cinco anos ficar em 14,75%.
CDI médio no período (100% do CDI) | Valor bruto em 5 anos |
12,00% | R$ 17.623 |
13,00% | R$ 18.424 |
13,75% | R$ 19.044 |
14,75% | R$ 19.896 |
Se os juros caírem, o prefixado leva vantagem. Só que a curva já projeta juros perto de 14% para o período. Por isso, o ganho do prefixado vem basicamente do prêmio de crédito, e não de uma aposta vencedora contra o mercado.
A pergunta certa, então, não é "a Selic vai cair?". A pergunta é: "a Selic vai cair mais do que o mercado já precifica?"
Conta 4: o risco de sair antes (marcação a mercado)
O prefixado só garante a taxa contratada no vencimento. Se você precisar resgatar antes, o título é vendido pela taxa de mercado do dia.
Numa estimativa simplificada, se as taxas de mercado subirem 1 ponto logo depois da aplicação, o valor de um título prefixado de 5 anos cai cerca de 4,2%. Se subirem 2 pontos, a queda chega a cerca de 8,3%.
Além disso, muitos CDBs não têm recompra antes do vencimento. Nesses casos, o problema não é só o preço: pode simplesmente não haver saída.
Conta 5: a inflação que a taxa embute
Os títulos do Tesouro atrelados à inflação (NTN-B) fecharam 16/09 pagando cerca de 7,5% a 7,7% acima do IPCA, nos vencimentos de 2029 e 2035.
Comparando com 14,75%, a inflação que "empata" as duas opções fica em torno de 6,6% a 6,7% ao ano. Isso está bem acima do teto da meta de inflação, que é de 4,5%.
Se a inflação média ficar abaixo disso, o prefixado ganha do IPCA+.
Se ficar acima, o IPCA+ protege melhor o poder de compra.
Essa comparação é aproximada, porque um é título de banco e o outro é título público, mas ela mostra quanto de inflação a taxa já absorve.
O FGC não é detalhe
O Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por CPF, por instituição financeira, incluindo os rendimentos. Acima desse valor, o risco do banco é todo seu.
Para um prazo de cinco anos, vale checar três coisas:
O rendimento: calcule o valor no vencimento, e não só o aplicado.
A concentração: some tudo o que você já tem no mesmo banco.
O emissor: conheça a saúde financeira do banco antes de travar o dinheiro por meia década.
Checklist antes de clicar em "investir"
A taxa paga um prêmio claro sobre o DI do mesmo prazo?
Esse dinheiro pode ficar parado até o vencimento?
O valor, já com os rendimentos, cabe no FGC daquele banco?
Você está confortável com a inflação implícita na taxa?
O prefixado faz sentido na sua carteira como um todo, e não só como "oferta do dia"?
Se alguma resposta for "não", a oferta pode até ser boa para o banco, mas não necessariamente para você.
Perguntas frequentes
CDB prefixado é mais arriscado que Tesouro Prefixado? Tem risco de crédito do banco (coberto pelo FGC até o limite) e costuma ter menos liquidez. O Tesouro Prefixado tem risco soberano e recompra diária, mas também sofre marcação a mercado.
Com a Selic caindo, o pós-fixado perde sentido? Não. O pós-fixado é a parte da carteira que não sofre marcação a mercado. Ele serve de reserva e de munição para oportunidades.
Posso vender o CDB prefixado antes do vencimento? Depende do título. Muitos não têm liquidez diária. Quando há recompra, ela é feita a preço de mercado e pode gerar perda.
Qual prazo faz sentido? Um prazo que coincida com um objetivo real seu. Travar um prazo longo sem saber quando vai precisar do dinheiro transforma proteção em aposta.
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Conteúdo educacional. Não constitui recomendação individual de investimento. As taxas citadas são de 16/09/2026 e mudam diariamente.


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